Ela esperava no seu jardim o tão sonhado dia. O dia que seria escolhida para viver uma vida junto com sua ''escolhida'' família. Pois então a esperar. Todos diziam que sua hora estava a chegar, e ela não parava na terra de felicidade. Essa felicidade que faz-nos parecer pipocas dentro da panela, até a hora de sermos devorados e amados pelo gosto salgado e atroz da manteiga. Pois bem. O dia chegou. Aprontou-se toda com seu melhor perfume; aquele guardado há um tempo debaixo das laranjeiras, e então pôs seu laço vermelho da cabeça, esperando um certo alguém passar e se encantar com tal magra criatura de olhos amanteigados; aquela manteiga da pipoca... Esperou, esperou... Quando o dia estava a terminar, já arrumava as coisas pronta para voltar ao lar, ouvem-se gritos de certa família que chegara atrasada. A família parou, respirou, olhou para ela. Seus cuidadores a podaram como uma flor: sem espinhos, sem folhas. Ela estava ali bruta, nada lapidada ; um ano. A família queria ela, daquele jeito, bruta, amanteigada e vermelha. Desse jeito como os olhos a viam e a admiravam. Poli, finalmente, foi adotada. Chegou o grande dia em que chegaria na sua ''casa perpétua'' e se educaria à moda daquele ambiente e daquela família. Tudo certo. Apenas é esquecido que os animais necessitam de condicionamento, para assim, respeitar as regras da boa casa. Dois dias, após seu fabuloso destino, Poli é devolvida, tal qual como foi adotada. Atrasada ao som de gritos, porém gritos de arrependimento. Não possuía mais cheiro das laranjeiras, nem seu laço vermelho suportou tal atrocidade. Seus olhos foram dominados, não mais pelo sal da pipoca, mas de um amargo veneno que apenas ela tinha experimentado. Não comia, não aceitava mais ser lapidada para outra família, nem escondia mais seu perfume nas laranjeiras, que um dia floresceram; agora, não mais.
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